Coleção do Departamento de Patologia
A Coleção do Departamento de Patologia (CDEPAT) teve sua origem na década de 1980, a partir de estudos realizados por pesquisadores do Departamento de Patologia. O acervo é composto por material biológico e documental referente a materiais humanos e de animais de experimentação. No total, a partir de mais de 23 mil casos, a Coleção conta com cerca de 350.000 itens, incluindo blocos de parafina, lâminas histológicas com suas respectivas fichas de encaminhamento ao Setor de Histotecnologia do Departamento, além de imagens digitais de preparados histológicos.
Esse material preserva a história de mais de 40 anos de pesquisas científicas, que têm contribuído de forma significativa para o entendimento de doenças como esquistossomose, angiostrongilíase, febre amarela, dengue, Covid-19, além de estudos sobre a fisiologia humana, como a hematopoese.
O acervo acompanhou as transformações administrativas da instituição, incluindo a democratização da gestão após o Massacre de Manguinhos, preservando e expandindo continuamente seu conteúdo. A Coleção está profundamente vinculada à história da Fiocruz, cuja missão sempre foi promover a saúde pública. Esse crescimento reflete tanto os avanços científicos quanto as mudanças estruturais que moldaram a Fiocruz ao longo do tempo, consolidando o CDEPAT como um testemunho histórico e contemporâneo das contribuições da Fundação para a ciência e a saúde pública.
Blocos de parafina da CDEPAT
Histórico da CDEPAT
A história da Coleção começou com a transformação da antiga Divisão de Anatomia Patológica em Departamento de Patologia, em 1979. Esse processo foi conduzido por José Rodrigues Coura, que, ao assumir a Vice-Presidência de Pesquisa da Fiocruz, propôs a reorganização do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) em departamentos. Em 1981, o Departamento foi instalado no Pavilhão Gomes de Faria, onde permanece até hoje.
Em 1984, a convite do Prof. Coura, os pesquisadores Henrique Leonel Lenzi e Jane Guilhermina Arnt Lenzi, recém-retornados de Harvard, ingressaram no Departamento. Essa chegada marcou o início de sua reestruturação, com o objetivo de resgatar a filosofia da Escola de Manguinhos, mas com uma abordagem moderna e dinâmica. Para isso, o Departamento focou nos seguintes objetivos:
- Estudar a patologia humana associada a doenças infecciosas e parasitárias.
- Investigar modelos experimentais, utilizando técnicas modernas para compreender a patogênese de tais doenças.
- Formar recursos humanos capacitados para realizar pesquisas e diagnósticos avançados.
Os primeiros 15 anos foram dedicados ao cumprimento desses objetivos e à criação de infraestrutura para os trabalhos de patologia. A partir de 1985, o Departamento passou a salvaguardar Coleções importantes, como as peças macroscópicas do Museu da Patologia e a Coleção de Febre Amarela.
O material produzido pelo Setor de Histotecnologia do Departamento ao longo das décadas deu origem à CDEPAT, que segue em expansão devido ao volume de materiais necessários para estudos científicos, dissertações e teses nas áreas de Patologia e Hematologia.
Pavilhão Gomes de Faria, no campus de Manguinhos. Ela representa a memória viva das atividades de ensino, pesquisa e consultoria realizadas pelo grupo ao longo de mais de 40 anos, constituindo um acervo de valor inestimável
Pesquisa na CDEPAT: Contribuições e Avanços
Legado Científico: Pesquisas que Construíram o Acervo
As pesquisas que originaram o acervo da CDEPAT continuam em desenvolvimento, refletindo a evolução das investigações do então LAMES. Esse acervo reúne materiais que resultaram em importantes contribuições científicas, entre as quais se destacam:
- Descoberta de um ciclo de Trypanosoma cruzi em glândulas anais de Didelphis marsupialis que se assemelha ao existente no hospedeiro invertebrado (em colaboração com o Departamento de Protozoologia/IOC);
- Descrição de um órgão linfomieloide associado às cavidades celomáticas e sua participação em várias infecções parasitárias;
- Proposição de mecanismo complexo para a eliminação de ovos de Schistosoma mansoni para a luz intestinal de camundongos;
- Abordagem morfogenética e multidisciplinar da participação de componentes da matriz extracelular e moléculas de adesão em lesões de diversas etiologias, em especial do granuloma esquistossomótico;
- Introdução do roedor cricetídeo Calomys callosus como modelo experimental para estudo da patologia da esquistossomose mansônica murina, face a peculiaridades frente ao modelo camundongo;
- Redescrição da via migratória do Angiostrongylus costaricensis em seus hospedeiros intermediário (em cooperação com o Laboratório de Helmintoses Intestinais, CPqRR/ Fiocruz) e definitivo, bem como aprofundamento do estudo da patologia humana/ experimental da angiostrongilíase abdominal, doença provocada por este helminto;
- Estudo histológico seqüencial das lesões do tecido hematopoético intra-medula óssea sob radiação ionizante (trabalho de aluno de Vocação Científica, premiado no XXI Prêmio Jovem Cientista – Categoria Estudante do Ensino Médio, com o 2º. lugar, em 2005);
- Descrição histológica seqüencial da montagem do Sistema Linfo-Hematopoético em camundongos durante a gestação, evidenciando os sítios de geração de células-tronco hematopoéticas e os locais de migração, estabelecimento e proliferação destas. Destaque para a observação da migração de células neutrofílicas maduras anterior ao estabelecimento de progenitores hematopoéticos na medula óssea (trabalho premiado durante o 14º. Simpósio Internacional sobre Avanços Recentes em Transplantes de Células-Tronco, Heidelberg, Alemanha, em 2007);
- Caracterização de esponjas de água doce como agentes etiológicos de lesão ocular, a partir dos casos humanos registrados em Tocantins em 2006 (em colaboração com vários grupos nacionais);
Além disso, novas frentes de estudo foram incorporadas no contexto do Laboratório de Medicina Experimental e Saúde. Entre essas linhas de pesquisa, destacam-se:
- Patologia, imunopatologia e patogenia de doenças infecciosas e parasitárias;
- Fisiologia, ontogenia e filogenia do sistema linfo-hematopoético, incluindo a biologia e plasticidade de células tronco;
- Desenvolvimento de técnicas para microscopia fotônica de alta resolução, especialmente confocal a laser e para microscopia eletrônica de varredura sob baixo vácuo;
- Fisiopatologia da esquistossomose e da resposta imune na cavidade peritoneal, com possíveis aplicações no tratamento de doenças inflamatórias e oncológicas;
- Estudo histopatológico de lesões causadas pelas infecções primárias causadas pelos vírus dengue e pela infecção em primeiro modelo murino da literatura a desenvolver aspectos observados na dengue grave.
- Fisiopatologia da Covid-19 aguda com a utilização de um modelo experimental animal que mimetiza a doença em humanos.
- Estudo morfofisiológico dos órgãos envolvidos na hematopoese de Zebrafish adultos e utilização deste modelo como plataforma de tratamento personalizado para doenças hematológicas.
Missão e Visão
Missão:
Promover a salvaguarda do Patrimônio material referente ao acervo denominado "Coleção do Departamento de Patologia do Instituto Oswaldo Cruz" (CDEPAT), gerado a partir de material humano e de animais empregados nos experimentos realizados pelo próprio Departamento a partir de 1984, inclusive buscando fomento e colaborações para a pesquisa científica em seu acervo biológico e documental e dando suporte à divulgação científica do Museu da Patologia.
Visão:
Re-estruturar, organizar e modernizar a Coleção do Departamento de Patologia do IOC (CDEPAT) transformando-a em um acervo informatizado que permita a fruição dos conhecimentos científicos para os pesquisadores visitantes e fomente a pesquisa pluridisciplinar neste acervo suscitando parcerias nacionais e internacionais.
Glossário
Histotecnologia: é a ciência que estuda os métodos de preparação de tecidos para o exame microscópico, incluindo a fixação, desidratação, inclusão em parafina, corte e coloração.
Histopatologia: é o estudo das alterações morfológicas e funcionais dos tecidos e órgãos em resposta a doenças, utilizando técnicas de microscopia para identificar lesões e alterações celulares.
Esquistossomose: Doença causada por vermes do gênero Schistosoma, que afeta principalmente o fígado, o intestino e outros órgãos, podendo causar inflamação e danos nos tecidos.
Angiostrongilíase: Infecção causada por vermes do gênero Angiostrongylus, que pode afetar os pulmões ou o sistema digestivo, dependendo da espécie do parasita.
Hematopoese: Processo de formação e desenvolvimento das células do sangue, como glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.
Trypanosoma cruzi: Protozoário causador da doença de Chagas, transmitida principalmente por insetos conhecidos como barbeiros.
Didelphis marsupialis: Espécie de marsupial conhecida como gambá, que pode atuar como hospedeiro intermediário para o nome científico do gambá-comum, um marsupial encontrado na América Latina que pode ser hospedeiro de parasitas como o Trypanosoma cruzi.
Triatominae: Família de insetos conhecidos como barbeiros, que são vetores da doença de Chagas.
Calomys callosus: Espécie de roedor que tem sido utilizada como modelo experimental em estudos de esquistossomose e outras doenças infecciosas.Schistosoma mansoni: Parasita causador da esquistossomose, uma doença tropical negligenciada que afeta milhões de pessoas em todo o mundo.
Angiostrongylus costaricensis: Vermes causadores da angiostrongilíase abdominal, uma infecção parasitária que pode causar dor abdominal e complicações gastrointestinais.
Agentes etiológicos: Microrganismos, como bactérias, vírus e parasitas, que são responsáveis pelo desenvolvimento de doenças.
Patogenia: Estudo dos mecanismos pelos quais uma doença se desenvolve no organismo.
Imunopatologia: Área da ciência que investiga como o sistema imunológico contribui para doenças, seja por reações exageradas ou pela falta de resposta adequada.
Ontogenia: Processo de desenvolvimento de um organismo desde a fase embrionária até a vida adulta.
Filogenia: Estudo da história evolutiva e das relações entre diferentes espécies de seres vivos.
Fisiopatologia: Área da ciência que estuda as alterações que ocorrem no corpo devido a doenças.
Cavidade peritoneal: Espaço dentro do abdômen onde ficam órgãos como estômago, intestino e fígado, revestidos por uma membrana chamada peritônio.
Morfofisiológico: Relacionado à estrutura (morfologia) e ao funcionamento (fisiologia) de órgãos e tecidos.
Doenças hematológicas: Doenças que afetam o sangue e os órgãos responsáveis pela sua produção, como leucemias, anemias e distúrbios de coagulação.